PORQUE
SOFREMOS
Por José
Argemiro da Silveira
"Felizes
os que choram, porque serão consolados" (Mateus 5:4)
A
vida na Terra é uma luta constante. Desde que nascemos, ou
renascemos, até a desencarnação, estamos sempre
diante de dificuldades, desafios, obstáculos a vencer. Por
que é assim? A causa da dor tem sido motivo de estudos, pesquisas
dos pensadores em todas as épocas. A Doutrina Espírita
nos ensina que o sofrimento é o preço da evolução
espiritual, do desenvolvimento de nossas potencialidades. Toda a vida
da natureza em evolução está baseada numa espécie
de sofrimento sadio. O embrião ao romper a casca, na germinação,
atravessar a terra em busca da luz do sol, lembra trabalho, luta,
uma espécie de sofrimento. Se um ferimento não causasse
dor, por certo seria difícil manter a integridade do corpo
físico. Não receberíamos os avisos indispensáveis
para cuidarmos da parte lesada. A dor física acusa algum distúrbio,
algo funcionando mal na máquina orgânica. A dor moral
(medo, angústia, ansiedade, insegurança, etc.) indica
desequilíbrios no Espírito, na individualidade. Ambas
as dores servem para informar que algo não está bem
e que precisa ser corrigido.
Jesus
promete felicidades aos que sofrem. Serão consolados, compensados.
O resultado prometido pelo Mestre ocorrerá num futuro próximo,
ou mais distante. Nesta vida, ou no plano espiritual, ou em vidas
futuras. Com a experiência, o aprendizado, a depuração
daí decorrente nos fará melhores entendedores da Lei
Divina. Ensinar-nos- á a viver de acordo com a Lei, consequentemente,
em harmonia, paz e segurança.
A causa da dor - A Doutrina Espírita nos esclarece que o sofrimento
pode ser expiação, provação ou missão.
Expiação quando transgredimos às leis divinas
e temos que reparar os danos. Agimos em desacordo com a Lei: ferimos,
humilhamos, maltratamos, fazemos outros sofrerem. Teremos que reparar
os males cometidos. É a Lei. A cada um segundo suas obras.
Plantamos o mal, usando da nossa liberdade. Teremos, compulsoriamente,
que colher os resultados correspondentes. "Quem com ferro fere,
com ferro será ferido", disse o Mestre. Mas nem todo sofrimento
é expiação. No item 9, cap. V, de O Evangelho
Segundo o Espiritismo, Allan Kardec assinala: "Não se
deve crer, entretanto, que todo sofrimento porque se passa neste mundo
seja necessariamente o indício de uma determinada falta: trata-se
freqüentemente de simples provas escolhidas pelo Espírito
para sua purificação, para acelerar o seu adiantamento".
São claras as palavras do Codificador. Não estão
corretos aqueles que generalizam e afirmam que todo sofrimento é
resultado de erros praticados no passado. O desenvolvimento das potencialidades,
a subida evolutiva, requer trabalho, esforço, superar desafios.
É a provação. As tarefas a que o Espírito
se submete, a seu próprio pedido, com vistas ao seu progresso,
à conquista de um futuro melhor.
E
há, ainda, o sofrimento-missão. Espíritos mais
evoluídos que aceitam tarefas em planos inferiores, para ajudar
os irmãos menos evoluídos. Como o professor que vai
à sala de aula para orientar, para ajudar os educandos no seu
aprendizado. O professor, ensinado, também aprende. O missionário
ensinado, exemplificando o bem, sofre as incompreensões daqueles
a quem está ajudando, mas também cresce em conhecimentos
e em experiências.
Como
sofrer? Não basta sofrer, é preciso saber sofrer. Se
não tirarmos da luta, dos obstáculos superados, as lições
que eles nos trazem, poderemos ficar repetindo a lição,
como o aluno pouco inteligente, que perde tempo no aprendizado. A
dor pode levar à revolta. A criatura se rebela, considera-se
injustiçada, fica contra tudo e contra todos. Isto vai aumentar
o seu sofrimento e até mesmo criar dores desnecessárias.
Como a criança que faz birra ao tomar banho. Chora, bate com
as mãos, com os pés, e acaba levando água com
sabão aos olhos. A dor daí decorrente seria evitada
sem a birra. O revoltado vai demorar mais para aprender. Os benefícios
da dor chegarão mais tarde, quando dobrar o seu orgulho e se
ajustar à Lei Divina.
Às vezes, a dor faz outro tipo de sofredor. São os conformistas.
Pessoas que perdem o entusiasmo pela vida. Consideram-se vencidas,
derrotadas. Daí por diante vão sendo levadas pelos acontecimentos,
considerando-se incapazes de assumir a direção do que
ocorre em suas vidas. Como se as dificuldades fossem maiores do que
eles. Estes também retardarão as compensações
prometidas por Jesus. Pela falta de confiança em Deus e em
si mesmas, esquecidas de que "Deus não coloca fardos pesados
em ombros fracos". Só um pouco mais tarde colherão
os benefícios das lições consideradas, incorretamente,
como difíceis demais.
E,
finalmente, há aqueles que sabem sofrer. Não se revoltam
nem se deixam abater pelos obstáculos. Mobilizam suas forças,
vão à luta e conseguem superar as dificuldades. Como
disse o poeta: "levantam, sacodem a poeira e dão a volta
por cima". Aproveitam as lições que a dificuldade
oferece, tornando-se mais experientes, valorizados, regenerados.
A
mensagem do Espiritismo aos que sofrem é a mesma de Jesus,
no Evangelho. O Mestre nos convida: "Vinde a mim, todos vós
que vos encontrais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei".
Ir a Jesus é procurar conhecer e seguir seus ensinamentos.
Esforçar-se para viver conforme Ele ensinou. É o estudo
e o trabalho no bem. Estudo é a informação, a
seta que indica o caminho. Mas só saber a direção
a tomar, e não caminhar não adianta. É preciso
experimentar, fazer como Ele nos ensinou. Se procurarmos agir assim,
iremos encontrando o equilíbrio, a paz e o alívio para
as nossas dores. Se ainda não estamos recebendo tais benefícios
é porque ainda não nos empenhamos em praticar o que
o Mestre nos ensinou, no Evangelho. Estamos, ainda, só na teoria,
só na informação. Somos cristãos de rótulo,
simples teóricos. Quando a vida nos oferece as situações
para experimentarmos os princípios cristãos (tolerância,
indulgência, perdão, auxílio desinteressado ao
próximo) fracassamos porque aqueles princípios são
em nós, apenas teoria. Não foram introjetados, conscientizados,
apreendidos verdadeiramente.
À
medida em que atendermos o amável convite de Jesus, e irmos
à Ele, vivendo seus ensinamentos, estaremos encontrando o alívio
desejado para as nossas dores.
José
Argemiro da Silveira
Escritor e orador espírita, escreve para o jornal "Verdade
e Luz" de Ribeirão Preto(SP)